
QUANDO UM CIDADÃO ‘PENSA’ UM PAÍS
Foi por meio de um contato feito pelo WhatsApp que eu ‘embarquei’ nesse livro. Uma professora da FGV, ao saber do tema e da abordagem que o autor pretendia, indicou-me para ajudar a contar essa história.
Na realidade, coube-me fazer o prefácio desse relato de Claudio Abreu, sobre sua atuação em circunstâncias históricas que tiveram como ponto relevante o lançamento de um plano econômico no início dos anos 1990 e que repercute até hoje: o Plano Real.
Não é do plano em si que esse livro trata e sim da iniciativa do funcionário do BNDESPAR, subsidiária do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, engenheiro civil e mestre em administração, que acreditou poder fazer algo para combater a inflação.
Mais ainda, interromper de forma definitiva, a linha ascendente de uma inflação mensal de dois dígitos, iniciada no princípio dos anos 1980, que alcançaria os três dígitos até o final daquela década. Pior ainda: que chegaria a 2.477,15% no acumulado do ano de 1993 e nada menos do que 4.922,46% nos 12 meses findos em junho de 1994, véspera do lançamento do Real, ocorrida em 01/07/1994.
Quebrar essa ‘corrente perversa’, que exauria a economia, acirrava a carestia e tornava o país dependente, em função da dívida externa, era o grande desejo do engenheiro capixaba, que sonhava com um Brasil com menos desigualdades.
Quem o levou a estudar essa questão, para buscar uma solução, foi um cidadão que ‘pensava’ o país: o sociólogo Betinho, criador da Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria e a pela Vida, que em maio de 1993 foi pedir apoio do BNDES à campanha contra a fome, como ficou popularmente conhecida na época.
Ao se despedir de Betinho, na porta do elevador da instituição, Claudio Abreu, ciente de “quem tem fome, tem pressa’, prometeu ao sociólogo que iria apresentar uma proposta para acabar com a inflação que corroía a economia e esvaziava o prato do brasileiro mais humilde.
Em menos de dois meses, entregaria a primeira versão de sua proposta ao então presidente do BNDES, Delben Leite. Poucos dias depois, uma versão aprimorada foi apresentada ao então secretário-executivo de Planejamento, Orçamento e Coordenação da Presidência da República (Seplan), Raul Jungmann, propondo um indexador cambial determinado por uma cesta de moedas estrangeiras que depois se transformaria na moeda forte nacional.
O cidadão capixaba que acreditou poder fazer algo pelo país, assim como Betinho e outros que ‘pensavam’ o Brasil, se empenharia em distribuir a proposta final, intitulada “A Indexação Diária Negociada Contra o veneno da cobra, só o próprio veneno da cobra”.
Em pouco mais de dois meses, Claudio Abreu apresentou ou enviou sua proposta de combate à inflação para cerca de 200 pessoas, entre executivos do BNDES, autoridades federais, incluindo o então presidente da República, Itamar Franco, ministros da área econômica (Fazenda, Planejamento, Indústria e Comércio, entre outros), além de parlamentares (Congresso) políticos, economistas, catedráticos e lideranças de diversos setores da economia.
Ele propunha uma fase inicial de preparação de uns 6 meses, onde se permitiria a indexação diária voluntária dos preços, se criaria um indexador diário carro-chefe, com valor inicial igual a um dólar, e atualizado diariamente pelas cotações de uma cesta de moedas, que passaria a ser utilizado para a atualização dos salários e benefícios, de forma a alinhar os preços relativos; depois viria a fase de estabilização (de um ano ou mais), na qual seria criada uma moeda transitória, de valor igual ao do indexador, para reduzir a inflação inercial, e tudo (preços e salários) permaneceria atrelado ao indexador, agora de forma compulsória. Por fim, viria a fase de consolidação, na qual o indexador se transformaria na nova moeda forte e que seria proibida toda e qualquer indexação na economia.
Entre os que receberam esse trabalho, de agosto a setembro de 1993, estão o então ministro Fernando Henrique Cardoso, bem como outros membros de equipes da área econômica, como Edmar Bacha, André Lara Rezende, Winston Fritsch, Pérsio Arida, Pedro Malan, Aspásia Camargo, entre outros.
Com a Medida Provisória No 434, de 27 de fevereiro de 1994, que lançou o programa de estabilização econômica e instituiu a Unidade Real de Valor (URV), um dos pontos centrais do Plano Real, Claudio Abreu se perguntou se alguém não teria ouvido suas ideias e incorporado parte delas no plano que mudaria os rumos da economia no país.
“Afinal, como surgiu a URV?”, questiona o engenheiro que sente ter um gene seu no Plano Real. Essa é a razão de ser desse livro, acalentado há três décadas por Claudio Abreu. Período no qual reuniu uma vasta documentação sobre aqueles meses de 1993 em que buscou ser ouvido: cartas, recortes de jornais, entre os quais a Tribuna da Imprensa, o Jornal do Brasil e A Gazeta (ES), que fizeram matéria sobre a proposta de Claudio.
Tudo isso está reunido nesse livro que chega agora às mãos dos brasileiros, relatando o empenho de um cidadão obstinado, que decidiu participar da construção de uma solução para o país e não apenas esperar a ação dos governantes.
Jornalista com mais de 43 anos de atuação, acompanhei os diversos planos econômicos das décadas de 1980 e 1990: Cruzado (1984), Bresser (1987), Verão (1989), Collor I (1990) e Collor II (1991), e, finalmente, o Plano Real (1994).
Ficou claro para mim, cada vez que busquei informações complementares sobre o tema, que cada plano era um esforço coletivo conduzido por lideranças, com contribuições de muitos que atuavam nos bastidores.
Assim sendo, é compreensível o desejo de Claudio Abreu contar por que acredita ter contribuído para o Plano Real. É mais uma vez o cidadão que não se acomoda, mas que busca ter protagonismo.
É a mesma inconformidade de 30 anos atrás que o leva hoje a questionar, nesse livro, se existe um gene dele no Plano Real, fazendo uso do direito de livre expressão. Vale a pena conferir!
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